Privacidade e Terror: Taleban tem acesso a base de dados dos cidadãos afegãos

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Em meio a tomada do Afeganistão pelo Taleban e toda a problemática envolvendo a vulnerabilidade de seus cidadãos, uma preocupação adicional emerge: a possibilidade do Taleban utilizar os dados pessoais dos afegãos como meio de perseguição e aniquilação dentro do novo regime instaurado.

Taleban utiliza mídias sociais para promover golpe

Em sua primeira tomada de poder (1996-2001) as redes sociais não representavam um meio efetivo e rápido de propagação de ideias e agitação social como apresentam hoje. Dias atrás, por exemplo, o porta-voz internacional do Taleban, Suhail Shaheen, narrava a queda de cada território tomado a caminho de Cabul, afirmando que ações como a proibição de meninas frequentarem a escola era “propaganda envenenada”.

As táticas em geral apresentam alto grau de habilidade, afirmam analistas. Supõe-se que pelo menos uma empresa de relações públicas está aconselhando o grupo terrorista sobre como promover temas-chave, amplificar mensagens entre outras plataformas e criar imagens e fragmentos de vídeo potencialmente virais – muito parecido com o que as campanhas políticas e corporativas fazem atualmente.


Fato este que atesta a grande familiaridade do grupo terrorista com as mídias sociais e recursos digitais disponíveis no país – agora representando um risco altíssimo pros titulares de dados que contém qualquer rastro de informação online contra o regime Taleban ou a favor do Ocidente.

Base de dados completa dos cidadãos está disponível ao Taleban

Segundo publicado pelo The Guardian, o jornalista John Naughton afirma que em 2013, após as revelações a respeito do sistema de monitoramento da NSA por Edward Snowden, o Afeganistão, assim como outros países do Oriente, decidiram por modernizar seus sistemas internos de vigilância aos cidadãos.


Sabe-se que o país incorporou bancos de dados modernos de seus residentes, passando desde de carteiras de identidade digitais até dados biométricos a fim de reduzir o voto e as fraudes previdenciárias. “Entendemos”, disse o Human Rights First, dos Estados Unidos, “que agora é provável que o Taleban tenha acesso a vários bancos de dados biométricos e equipamentos no Afeganistão. Esta tecnologia provavelmente incluirá o acesso a um banco de dados com impressões digitais e varreduras da íris e incluirá tecnologia de reconhecimento facial.”


Assim, os cidadãos afegãos que estão tentando garantir a segurança física de suas famílias agora têm uma preocupação adicional: que os dados biométricos (impressões digitais, varreduras da íris) e seus próprios rastros digitais possam ser usados por um novo regime totalitário para identificá-los e persegui-los em represália. A Human Rights First tem feito um trabalho útil fornecendo orientação sobre como os afegãos podem excluir vestígios de suas atividades online.


“Comece com uma lista de quais conteúdos e contas você deseja excluir”. “Considere as amplas categorias de onde suas informações podem ser armazenadas: 1) e-mail, 2) mídia social e 3) aplicativos de bate-papo. Você pode achar útil pesquisar seu próprio nome nos mecanismos de pesquisa para determinar quais informações estão disponíveis publicamente. Uma maneira de lembrar onde você tem contas online seria examinar suas senhas salvas e vasculhar cuidadosamente a lista lá. Conclusão: seja metódico e paciente em sua abordagem. ”

Apesar de uma tarefa trabalhosa e minuciosa, essa busca somente assegurará ao cidadão afegão apagar os vestígios visíveis de suas redes sociais, por exemplo. Mas não há nada que estes possam fazer sobre dados biométricos e outros dados pessoais mantidos nos bancos de dados oficiais que estarão acessíveis a qualquer governo que esteja no poder.” O que torna o caso afegão tão irônico,” alega Naughton, “é que muitos desses bancos de dados foram criados por consultores ocidentais como parte de uma tentativa de modernizar a sociedade”.

Redes sociais criam ferramentas para proteger dados pessoais dos cidadãos

Enquanto o Taleban mantém o controle do governo, residentes estão correndo contra o tempo para excluir fotos e postagens nas redes sociais que os vinculem a nações ocidentais, grupos internacionais de direitos humanos, militares afegãos ou o governo afegão recentemente tombado, todos alvo da repressão do grupo terrorista.

Dentro deste cenário, diversas plataformas de mídia sociais começaram a implementar novos recursos para ajudar os afegãos a protegerem suas contas e bloquear acessos de terceiros à suas informações. Segundo o site Reuters, o Facebook liderou o movimento, impedindo temporariamente os usuários de buscar perfis ou consultar a lista de amigos dos cadastrados no país. Entenda as mudanças que cada plataforma implementou e como isso está ajudando os titulares:

Facebook e Instagram

Durante a semana passada, Nathaniel Gleicher , head de Política se Segurança do Facebook anunciou uma série de alterações da plataforma, bem como diversas orientações específicas a jornalistas e ativistas que se encontram no país.

“nossas equipes trabalharam sem parar para fazer tudo o que podemos para ajudar a manter as pessoas seguras. Embora tenhamos que ser cuidadosos para evitar denunciar malfeitores, aqui estão algumas medidas de segurança que implementamos para que as pessoas no país protejam suas contas:


• Lançamos uma ferramenta de um clique para que as pessoas no Afeganistão bloqueiem rapidamente suas contas. Quando o perfil está bloqueado, as pessoas que não são seus amigos não podem fazer o download ou compartilhar a foto do perfil ou ver as postagens em sua linha do tempo.
• No Instagram, estamos lançando alertas pop-up no Afeganistão com etapas específicas sobre como proteger sua conta.
• Também removemos temporariamente a capacidade de visualizar e pesquisar a lista de “Amigos” para contas do Facebook no Afeganistão para ajudar a proteger as pessoas de serem alvos.

Para jornalistas e ativistas no Afeganistão (ou em qualquer ambiente de alto risco) é importante lembrar que as redes sociais são apenas uma das esferas a serem protegidas, por isso estou incluindo links para alguns guias de segurança online úteis para jornalistas e ativistas (…)”

Clubhouse

O aplicativo de áudio social Clubhouse, por sua vez, redefiniu dezenas de milhares de biografias e fotos de seus usuários afegãos e dificultou a descoberta de suas contas nas pesquisas. Um porta-voz do Clubhouse disse ao site The Verge que as ações não afetaram os seguidores dos usuários, e todas as mudanças podem ser revertidas caso o usuário deseje.

O aplicativo também tem lembrado a seus usuários afegãos que permite pseudônimos para fins de direitos humanos ou segurança. A empresa consultou especialistas em liberdade de expressão e extremismo violento para ajudar a elaborar sua abordagem, afirmou o porta-voz.

LinkedIn

A plataforma de rede profissional LinkedIn também seguiu o exemplo das demais redes sociais, ocultando temporariamente conexões de usuários localizados no Afeganistão a fim de que outros usuários fora de seu círculo não pudessem encontrá-los online.

Youtube

O YouTube, que pertence ao Google, anunciou que suprimirá todos os conteúdos pró-Talibã de sua página.

Twitter

Alvo de críticas no cenário em que empresas se mobilizam prol da proteção online dos cidadãos, o Twitter vem sendo a principal plataforma utilizada pelo Taleban em seus comunicados a comunidade internacional. Um dos perfis oficiais do grupo, o do porta-voz internacional Suhail Shaheen, conta atualmente (24) com 402 mil seguidores e, até o momento, não teve postagens apagadas ou o perfil bloqueado, como já ocorrido com Donald Trump, por exemplo.

O ex presidente americano foi banido da plataforma por “incitar a violência” em janeiro de 2021, após prestar apoio a caótica represália de seus eleitores após sua derrota nas últimas eleições.

A questão levantada por analistas sobre a permissibilidade dos Taleban no Twitter ou não, versa sobre a falta de legitimidade do grupo versus a ideia de que privar o Taleban de um meio de comunicação é contrário ao interesse da população afegã, que deseja saber o que esperar dos novos governantes.

Grupo não pode utilizar Whatsapp ou Instagram por ser ‘Organização Terrorista’

Para o Facebook, detentor do Whatasapp e do Instgram, o Taleban é classificado como “organização terrorista” pela lei americana, tendo, portanto, suas contas bloqueadas dos serviços da empresa a fim de evitar propagação de notícias falsas e que quaisquer apoiadores os acompanhe nas redes.

“O Taleban está classificado como organização terrorista segundo a lei americana e proibimos que usem nossos serviços de acordo com nossa política sobre ‘organizações perigosas’. Isto significa que suprimimos as contas administradas por ou em nome dos taleban e proibimos elogios, apoio e representações a eles”, afirmou à AFP um porta-voz do Facebook.


Ainda não é possível saber se o grupo poderá usar as contas oficiais dos ministérios do governo afegão, que têm milhares de seguidores e contam com o selo de verificação oficial da plataforma.


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